domingo, 3 de outubro de 2010

Cecosesola e mononucleose



Entrada da Feria del Centro
(eu "vivo" na casa que está do lado da objectiva)
 

A vida é irónica, oh se é. E o melhor remédio é mesmo rir na mesma medida em que ela nos vai passando rasteiras. E aprender, caso contrário as quedas só nos servem para acumular nódoas negras sem propósito.

Estou em Barquisimeto, umas das quatro maiores cidades venezuelanas, alojada num edifício na zona industrial da cidade, que alberga os serviços administrativos da Cecosesola, uma central de cooperativas do Estado Lara, que é tida mundialmente com um modelo a seguir em matéria de cooperativismo. Aqui decorre também uma das tres feiras de consumo familiar, que acabou há bocado. Estou sozinha em casa, e em quase todo o terreno (só tenho os guardas e os caes "callejeros" por companhia). Bem, nao se deixem levar por tanto dramatismo. É um bocadinho chato, é verdade. Estou doente, com mononucleose (a doenca do beijo que, ironicamente, nao cheguei a dar) e por isso nao fui a Trujillo, juntamente com os meus colegas voluntarios, para uma reuniao com os produtores, na montanha. Por mim, porque preciso de total repouso e as condicoes la sao duras, e por eles, porque a infeccao é contagiosa e as pessoas só tem o trabalho como fonte de rendimento. Também por causa  disso, nao tenho feito metade do que seria a minha missao aqui: trabalhar, como qualquer um dos associados,  e perceber a dinamica das reunioes, que sao a chave desta organizacao sem linhas de mando. Enfim, como no refeitório, lavo o meu póprio prato, que levo de casa (para nao contagiar ninguém), vou falando com as pessoas no escritório, nos corredores, tirando notas, entre retiradas para o quarto quando me sinto extremamente cansada. Sou a portuguesa que está doente. Tudo se sabe aqui mas é num sentido de proteccao, de cuidado, que sabe bem.

Chove, o que me deixa um bocadinho mais triste e melancólica do que seria normal.  O Yonata, que é um amor de pessoa, já esteve cá de manha para me entregar o seu laptop com ligacao a net, para  eu nao me sentir tao sozinha, a  Mery (escrevem-se ambos mesmo assim - uma venezolizacao dos nomes yankees) ja me enviou carradas de sms a perguntar como esta tudo e a desejar que Deus me proteja...  Amanha, chega a Ali, o Leo, e as duas espanholas, e tudo voltará quase ao normal. A história desta cooperativa é fascinante e, ao contrário do que seria de esperar, o móbil aqui nao foi o objectivo económico ou até mesmo o social, mas sim o pessoal. Esta cooperativa é, antes de mais, uma escola de humanismo, de desenvolvimento humano no seus vários aspectos, de capacitacao de cada qual para o seu potencial e responsabilidades. Só o respeito pelo próximo e o desejo de ser melhor, enquanto profissional e pessoa,  pode explicar que uma instituicao com esta dimensao  (60 organizacoes comunitarias e mais de 20 mil associados) continue a existir com sucesso depois de mais de 40 anos de vida. Independentemente das sucessoes de governos e muito antes que Chávez descesse a terra para pregar o seu "socialismo bolivariano". Levarei decerto daqui muita coisa, mas mais que tudo a solidariedade das pessoas, esta forma "comunitária" e comprometida de estar na vida, que parece nao existir mais la de onde venho e estou a falar de sítios tao pequenos quando colocados diante da escala venezuelana.

Mais um chá (preciso de beber muitos líquidos), talvez veja o Chávez outra vez logo a noite para me entreter. Sem querer tirar o mérito as boas medidas que ele aqui tomou e que eu só conheco pela rama, Chávez é entretenimento. O que eu me ri ontem a noite a ver, em directo, a reuniao entre ele, presidente do PSUV, e os deputados recem-eleitos. Ele canta o hino do Equador, ele nomeia o director de uma escola de altos estudos politicos e dá a noticia ao nomeado por telefone, ele conta conversas mais ou menos privadas com Fidel e Lula... Ele ri, saúda companheiros nas bancadas.... Enfim, Chávez é o presidente dos venezuelanos, que sao um povo assim, de afectos, de poucas formalidades. Que nos chamam "mi amor" ou "mi reina" por da ca aquela palha e nos abracam como se deve abracar quando nos cumprimentam.

Desculpem o desabafo, um pouco sem nexo. Estou sozinha (daqui a bocadinho, quando parar de chover, vou falar com os guardas) e estou doente. Dem-me um desconto e descontem tambem a ortografia, porque nao percebo nada deste teclado. Mas peco a Deus que de um lugar no ceu ao Yonata. Sem ele este texto nao existiria e estaria infinitamente mais triste e melancólica.

3 comentários:

bulgari disse...

Aih que preocupação! Agora é que uma pessoa fica de cabelos em pé. Não desanimes Charlotte. Estás bem medicada? Precisas de alguma coisa?
Vais ter que ter muita paciência mas o repouso é indispensável. Por favor cuida-te e alimenta-te bem mesmo que não tenhas vontade nenhuma. Tens Skype? Não sei se não te vais rir com a minha pergunta. Mais certo é que o Chavez não permita tal coisa.
Abreijos grandes de melhoras. Mesmo sabendo que agora não podes dar-te a esse tipo de afectos.

crianeo disse...

Charlotte,
Gosto de perceber que mesmo afectada pela dença estás positiva e a viver intensamente mais um importante contorno dessa tua experiência. Dá-lhe com alma. Mas não te esqueças de tomar conta de ti. Cá continuamos a enviar-te energia positiva! Um beijo apertado e as melhoras! Até já.

Bruno

Camolas disse...

Já vi que a malta se diverte em todo o lado menos no chamado primeiro mundo.
Rápida recuperação.Téjá