terça-feira, 17 de agosto de 2010

Inesperada entrega ao inesperado


El Calvário

Hoje comecei o dia, na aula de espanhol, com uma frase do Agostinho da Silva que gosto sempre de tirar da manga quando alguém me pergunta quais são os meus planos. Qualquer coisa como: “não costumo fazer planos para não estragar os que Universo tem para mim”. O dia foi todo ele assim. Saímos de casa - eu, a Ali e o Leo - para uma sessão de cinema, um corte de cabelo e uma boleia para fazer compras numa grande superfície, porque a casa está a precisar de abastecimento. Não vimos o filme – “Habana Eva”, da premiada realizadora venezuelana Fina Torres – porque a sessão que nos convinha estava esgotada , o Leo desistiu de cortar o cabelo assim que perguntou o preço e a nossa condutora chegou demasiado cansada para prolongar o dia.

Mas regressámos felizes e aliviados porque aproveitámos a tarde para falar bastante do que temos vindo a sentir nestes últimos dias a respeito do nosso trabalho aqui, da direcção do instituto, das expectativas que tínhamos e que, em grande parte, não estão a ser satisfeitas. Não vou entrar em detalhes mas creio que direi bastante se apontar este dia como uma metáfora do que pode vir a ser esta experiência: um caminho diferente do que eu tracei desde casa, do outro lado ao Atlântico, mas nem por isso menos correcto ou compensador.

Inesperadamente, estou mais aberta ao inesperado e, inacreditavelmente, mais crente nas pessoas, o que, já por si, é uma meta cumprida.


Mural visto desde a enorme escadaria do El Calvário
 
Da cidade, que muitos desenham como o inferno, vou desvendando cada dia um pouco mais, através das pessoas mais inesperadas. Um dia dedicado aos museus e às artes plásticas, guiado pelo meu primeiro amigo caraquenho, que é simultaneamente um pintor muito empenhado e promissor; uma manhã de visita à parte velha da cidade (Capitolio, El Calvário, praças Bolívar e San Jacinto), cortesia de um advogado amigo da casa, que já foi guia turístico; um domingo passado na Colónia Tovar, uma pequena Alemanha a 60 quilómetros de Caracas, na companhia da nossa Didi (monja de ioga) alemã, uma mulher amorosíssima e com um sentido de deleite perante a vida que não costumo encontrar com frequência. Pelo meio houve também um serão num casarão de revista, na parte rica de Caracas, propriedade dos pais de uma amiga de infância da Ali. Não se viam desde o ensino primário, nos EUA. Voltaram a encontrar-se aos 27 anos, em Caracas, Venezuela. Uma noite com os meninos da “linha” aqui da zona, um decalque perfeito dos “nossos”, no tipo físico e no vestuário. Pintámos os olhos e bebemos vinho argentino. Demos de beber ao nosso lado burguês.
Por cá, continuo procurando, descobrindo, surpreendendo-me, comigo, com os outros, com a vida; chorando, uns dias de frustração, outros de uma alegria límpida, perfeita. E  aceitando tudo, e tirando também o maior proveito de tudo, porque me parece agora que tudo sairá melhor se for aliada da vida. Da minha vida.  

Danças tradicionais dos Llanos, na Praça de San Jacinto  
 
"If you want to make God laugh, tell Him your plans"

4 comentários:

alexandre disse...

That's the spirit ;)
Falta de resposta ao que sabes por ter querido deixar a semente do que te disse germinar livremente. Força, chora, sorri, grita, dorme, sente ... VIVE
Bj
a.

crianeo disse...

Charlotte,
Fico tão contente por saber que é dessa forma que estás a viver e a encarar essa experiência. Força, esse é o caminho! Faços minhas as palavras do Zule.
Beijos muitos Charlotte!
bruno

crianeo disse...

Charlotte,
Fico tão contente por saber que é dessa forma que estás a viver e a encarar essa experiência. Força, esse é o caminho! Faços minhas as palavras do Zule.
Beijos muitos, Charlotte!
bruno

Ana disse...

É fantástica a experiência que estás a viver! Que inveja...
Aproveita cada instante para te libertares das "amarras" que a sociedade nos vai criando. É tão fácil esquecer o essencial... Ler aquilo que estás a viver ajuda a relembrar.

Beijos grandes
Ana