O tempo corre e é difícil retê-lo. É como areia fina entre os dedos. Gostaria de partilhar convosco cada momento mas depois de deixar passar aqueles minutos de ânsia, de urgência em escrever, vou deixando para amanhã e para depois de amanhã, porque há sempre qualquer coisa mais importante para fazer.
Passei mais um fim-de-semana em San José de Barlovento, nova ronda do Dia del Niño do Centro Madre por mais dois casaríos rurais, desta feita com um teatrinho de fantoches na programação, uma produção muito bem feita, com vozes, banda sonora e tudo, a cargo de uma professora/actriz que também é voluntária regular do centro. Além da tarefa de "pinta-caritas", que já conhecia, fui também as mãos por detrás de dois títeres, um corvo e uma velha, na história do espanta-pássaros que vence o medo e a baixa auto-estima e decide assumir a missão de guardar com valentia o milheiral que um casal de velhotes lhe havia confiado. À equipa, como chefe das palhaças e animadora principal, juntou-se uma brasileira que dá aulas de português em Caracas e respectivos filhos, e o Mário, venezuelano, o homem do camião mágico e dos arranjos e engenhocas. Sem ele a casa não funcionaria. Gente maravilhosa. Todos eles. O clima é duro, as marcas dos mosquitos persistem e parecem não desaparecer nunca, mas o que fica das conversas, da dinâmica dos ensaios, dos gestos de generosidade, de apoio, sobrepõe-se de longe ao desconforto físico. É uma família sem laços de sangue.
Sair de Caracas para Barlovento (zona próxima da costa) de autocarro, numa tarde de sexta-feira e em tempos de férias dos caraquenhos é a coisa mais estúpida que se pode fazer. Percebemos isso, eu e a Ali, depois de duas horas de fila no caótico terminal Nuevo Circo e sem esperança de um novo autocarro nas próximas duas. Foi aí que descobrimos o maravilhoso mundo dos carros-piratas (aqui diz-se "carro", à portuguesa, não "coche"), um meio de transporte não oficial, ligeiramente mais caro, mas com a vantagem de nos levar ao nosso destino sem esperas desumanas. Ao princípio, pensámos que era "esquema" - foi um rapazito e um amigo que nos deram a ideia - mas depois percebemos que toda a gente o faz, de tal maneira que é quase oficial. A viagem, mais de duas horas, foi ao som de salsa, num volume indescritível. Ninguém dorme a ouvir salsa como numa discoteca. O melhor seria ter aproveitado para dançar mas não havia espaço.
Já me aventuro mais pela cidade (a linha do metro é surpreendemente mais simples do que a de Lisboa) e até já tenho um "amiguinho" pintor, que conheci no centro cultural Celarg, onde ele e outros artistas plásticos estão a trabalhar, ao vivo, todas as tardes, numa relação directa com o público. Tornou-se meu language-partner (é suposto termos um) e ontem encontrámo-nos para uma lição informal sobre Venezuela - geografia, história, cultura... Não chegámos ao tema político. Mas já ouvi o bastante por cá para perceber que não há meios-termos. Ou se é chavista ou não. Há quem diga "Esto no es chavismo, es robismo" e há também quem ponha a mão no peito para defender o "comandante". Disso falaremos noutro dia.
Choveu ontem todo o dia. Fiquei um pouco nostálgica. Lembrei-de casa, de vocês, da minha gata... Não quis regressar mas desejei tê-los mais perto.
Fico por aqui
Beijos
6 comentários:
Tinha vindo cá duas ou três vezes e tinhas isto fechado. Agora lembrei-me de experimentar outra vez e que feliz que fiquei!
Que bom saber-te bem e feliz e a descobrires-te. E volto a sentir-me roída com aquela coisa que não é a inveja má, é a inveja boa. Que coragem Charlotte! Que coragem! Força aí! Aqui está tudo como de costume e o calor não se suporta... Mas não interessa nada. Vive isso tudo com a intensidade toda, absorve, respira e tudo mais! E vai deixando aqui umas larachas, que nós, os invejosos, gostamos de saber de ti! Um beijinho muito grande!
Charlotte,
Fico muito feliz pela emoção dos teus relatos. Ainda bem que está tudo a correr dessa maneira tão empolgante, profunda, absorvente. Por cá continuamos a torcer por que tudo continue a correr bem. Aí chove, aqui arde. Há semanas que não sei o que são menos de trinta e tal graus. Tenho feito de turista em Lisboa para a dar a conhecer ao André, que tem sido o meu grande companheiro de aventuras! Beijos meus, da Marta, do André, e do Tomé :)
Ainda bem que estás rodeada de boa gente e com certeza que, à medida que o tempo passa, irás conhecer ainda muitas mais pessoas. Esta semana mal tenho saído de casa porque não se suporta o calor e todos os dias tenho vindo aqui à espera de um post teu. Quando não escreves fico chateada...ainda hoje, quando falava com o Bruno ao telefone, comentou-se " eh pá, demora tanto para escrever..." Portanto, minha menina, estamos sempre desejosos, à espera que escrevas para saber notícias tuas.
Besitos Grandes
Charlota Linda,
Fui ontem conhecer o Tomé. Tem bom vibe e a família do nosso amigo está bonita. Comadrei com o B e especulámos (com o que podemos) sobre a tua estada, que já parece ser de meses :)
No meio de teatrinhos, languajando com partners que pintam ao vivo. Pelo que relatas, parece que a vida aí está mais próxima daquilo que deveria ser. Um eldorado que te cai bem. E desde que assim estejas, eu fico melhor. O "convento" está a correr bem, apesar do apelo do mar e do descanso ...
Recebe um abraço bom e que bom foi receber aquele bejo especial, qual medalha pelo surgimento cibernético :)
(miss you, of course)
Ena mas que corrente de ar mais agradável. Tempos houve em que eu fui o forasteiro, pois agora que virei árvore, fica sabendo que os teus relatos são mais do que revigorantes; são um relembrar que se o sonho comanda a vida, o querer comanda o sonho.
Queremos mais prosa, porra!
B,XXL
Querida Carlisabel:fico tão contente que te esteja tudo a correr tão bem, e que te sintas deslumbrada e apaixonada nesta fantástica aventura em que decidis-te embarcar. Ao ler-te,senti-me um cagarolas burguês, emocionado,feliz e orgulhoso da minha música do mundo favorita.Um grande beijo. Zeca.
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