Escrevo-vos como um zombie, que ainda não dormiu uma noite decente desde que chegou. Talvez devesse esperar uns dias para deixar a poeira assentar. Dar tempo para assimilar informação, emoções, novos hábitos. Mas a verdade é que sinto alguma urgência em escrever. Sairá daqui qualquer coisa como um diário partilhado, hoje com o cérebro apenas a 50 por cento.
As primeiras impressões são da casa e da família pouco convencional que aqui vive, uma casa fortaleza, de onde se avistam o monte Ávila, que abraça toda a cidade, e Petare, a maior favela (aqui diz-se barrio) de toda a América do Sul. Esta é a cidade que, por enquanto, conheço. À tarde vou aventurar-me numa primeira saída, para ver um concerto na Plaza Venezuela. As recomendações são muitas, a cidade é mesmo perigosa, mas dizem-me que é importante manter uma atitude descontraída e até uma linguagem corporal que não indique medo. Vou ter mesmo que abdicar da minhas bijuterias – baratas, é certo, mas vistosas quanto baste – e dos meus perigosos óculos Ralph Lauren modelo Sô Dona Amália, que fazem de mim uma apetecível “sifrina” (tipo a “burguesinha” do Seu Jorge). Aos poucos, quero começar a desapegar-me da casa para perceber o que se passa lá fora, quem é aquela gente que dança toda a noite para lá da janela do meu quarto.
A casa é uma comunidade sem chefes demasiado declarados e simultaneamente uma torre de Babel. Acordo com um “good morning” da Ali (EUA), faço ioga e meditação no terraço com o Dada Mahesh (EUA), que vive há mais de 30 anos na Venezuela e fala inglês ou espanhol consoante o humor ou o assunto, desço as escadas, cumprimento o Leonardo (Brasil) com um “bom dia” e pergunto-lhe se o pé engessado está melhor, sento-me e a Belit (Turquia) oferece-me café num espanhol ainda muito verde no vocabulário, mas já óptimo na pronúncia. Entretanto, conheço pessoalmente o José (VEN) depois de meses de emails entre o entusiasmo e o temor. Foi graças a ele que não deixei que, desta vez, o medo me detivesse à entrada de um caminho que se me abriu e que quis explorar. Porque sim. Porque às vezes, na vida, há que ter a coragem de não fazer perguntas.
(É um rapaz belíssimo. E se faço esta observação, completamente inútil neste contexto, é porque é mesmo verdade.)
Sinto-me em casa. É estranho. Nem por um segundo duvidei da minha pertença aqui. Senti-me imediatamente acarinhada como uma igual, reconhecida, respeitada, não pelo que represento mas pelo ser humano que sou. Talvez por isso, não ergui as habituais barreiras, ou talvez não as tivesse já comigo. Lentamente – e livremente - vou descobrir o meu papel aqui.
Saludos fuertes, amigos!


8 comentários:
Não consigo conter as lágrimas. O salto que eu sempre quis dar. Dá-me alento saber-te desse lado do mundo. Estou tão feliz por ti. Um grande grande abreijo.
P.s.-nem sabia que podia aqui entrar. Agora vou voltar com frequência.
Se a inveja matasse estava fulminado.
Dias novos, gente nova, cheiros novos, tudo novo, isso é que é encher o coração.
Hola Charlotte!
Fiquei muito contente por saber que estás feliz.Aproveita esta nova etapa da tua vida!
Saludos, Amiga!
Felicidades para a tua estadia. Hoje vou também celebrar em tua homenagem. Quando não conseguimos voar sozinhos, voamos nas asas dos amigos. Aproveita bem, mas não te metas em sarilhos. Traz-me um autógrafo do Chávez. Muitos beijos.
Paula L.
Charlotte,
sente os cheiros, a temperatura, ouve os sons, as línguas, os pássaros, as músicas, prova os paladares, partilha os sentimentos, aproveita todos os minutos, mas sem pressa. Estou aí contigo, mesmo por detrás daquele manequim... ;) Beijo cheio de saudadessssssssssss!!! Até já! :)
bruno
Estou cheia de saudades... mas muito feliz e orgulhosa de ti!!!!
Aproveita ao máximo, liberta-te das tuas barreiras e medos. Vive cada momento sem pressas, aproveitando cada segundo.
O Óscar e a Gaitinha também têm saudades dos mimos.
Muitos Beijos. Ana Paula
Leio-te daqui, do sítio que fica ao lado do teu, mas tu não estás lá e ainda bem. Sabe bem saber-te com coragem e à procura de tudo o que ainda não viste. Sabe bem ver-te sem os medos que te assolavam. A charlotte, com o seu metro e meio de altura, parece-me do tamanho do mundo e isso é tão bom...
Beijinhos dos campos de girassol
Bruna
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