Melqui, Didi e as palhaças de Madre Vieja
Estava ansiosa para me sentar e escrever. E não, não é sobre o corte de relações com a Colômbia ou sobre as "ameaças" de invasão do EUA. No sítio onde eu estava, embora houvesse televisão, só a usei para ver uma "Escrava Isaura" dobrada em espanhol e um programa sobre a vida selvagem do nosso amigo David Attenborough com menos 20 anos.
São só duas horas de carro desde Caracas - qualquer coisa como 100 quilómetros num Toyota Corola bem rodado, a respirar intensamente combustível pelas janelas abertas - mas a diferença é abissal. O primeiro dia foi duro. O clima desafia todas as nossas resistências. Mais calor, muito mais humidade e os mosquitos não perdoam nem as visitas. Meia hora sem ventoinha (impede-os de voar), devido a uma quebra de electricidade, e toda e qualquer parte do meu corpo ficou marcada. Misturem tudo isto com as minhas habituais insónias quando mudo de sítio e a minha misteriosa alergia de pele e imaginem a minha figura. O segredo é estar sempre em movimento, nunca parar, o que significa, por exemplo, não dizer que não a um jogo de dominó ou Memória com a Melqui, a menina que vive na casa, ou deixar que ela me fizesse penteados com ganchinhos amarelos. Eu, de facto, não me conheço.
Mas depois chegaram as adolescentes a quem a Didi, uma holandesa incansável, inesgotável, além de fundadora e directora do Centro Madre, havia atribuído a tarefa de organizar o Dia del Niño no seu próprio casario, Madre Vieja, com a nossa orientação. Escolhemos os fatos de palhaço, lindíssimos - em tempos funcionou ali uma cooperativa de costureiras - ensaiámos pinturas faciais, pintámos cartazes, comprámos apitos, balões, purpurina, decidimos que histórias contar, que danças dançar e que jogos jogar, e enfiámo-nos todos nas traseiras de um camião mais velho do que eu, a anunciar a tarde de festa. Foi um sucesso. As miúdas foram umas animadoras inscríveis e, mais importante que tudo, sentiram-se super orgulhosas do trabalho que fizeram, ali e também no casario vizinho, El Tesoro - talvez por estar tão bem escondido. Eu dei por mim com uma fila interminável de meninos e meninos à minha frente à espera de una "estrella" ou uma "culebra" na bochecha. As cobras verdes com pintas pretas foram um sucesso e eu, apesar de ser a pior desenhadora do mundo, fui uma verdadeira Da Vinci (vestida de palhaço, é certo) segundo a "crítica especializada".
Os cinco casarios com quem o Centro Madre trabalha são na realidade comunidades muito pequenas, separadas por meia dúzia de quilómetros, que não se conhecem, nunca se visitaram. Descendem de escravos africanos mas não conhecem o seu passado ou pelo menos não se esforçaram por conservar uma literatura oral sobre a própria história. Não se orgulham dela; apagaram uma identidade e não esperam muito da vida, nem de si próprios. Ser mãe, mesmo que aos 15 anos, é a única forma de reconhecimento que uma mulher ali pode ter. Ler, escrever, descobrir, inventar, criar foi algo que estas adolescentes descobriram há uma década no centro comunitário e que entregam agora como um testemunho aos seus irmãos, primos e vizinhos. Vou voltar no próximo fim-de-semana, para mais dois casarios.
Beijinhos a todos e em especial ao Alex que, por mim, inscreveu-se no blogger e já faz comentários e tudo, e tudo e tudo, como as pessoas que têm facebook e essas coisas de coscuvilhice da vida alheia.


5 comentários:
Ficas bem de palhaça. Muitos beijos e fico à espera da próxima.
Charlotte,
Ora aí está: uma prima afastada do Batatinha a fazer sucesso em terras de Bolívar! Muito bom! Lol! E esses desenhos bochechianos, como seriam agora comentados pela magenta, ou pelo carrilho? Isso é que eu queria ver! Ehehehe! Dá-lhe nessas tuas tão importantes tarefas! Leva sorrisos e bem estar a essa gente tão arredada do mais elementar que, por aqui, quase todos têm a sorte de poder aceder. Uma dica: para a semana quando fores novamente animar a malta, lembra-te do Sócrates a falar espanhol! Vai ser um verdadeiro sucesso! Beijos, querida amiga, beijos com muita saudade!
Bruno
Ehehehe Carliiiitas, grandes aventuras. Vens daí uma mulher nova e que bem te fica o fatinho de palhaço! Belas experiências que te enriquecem e que nunca mais irás esquecer.
Besitos
És a minha "palhaça" preferida!
Sabes que o Óscar também gostou desse teu fatinho.
Estou a gostar de saber que a outra Charlotte está a revelar-se e está a levar sorrisos e muita felicidade aos outros, em especial às crianças.
Estou, cada dia, mais orgulhosa de ti. Sempre fui uma "mana babada"...mas confesso que agora ainda estou mais. Admiro a tua determinação e perseverança. Continua a lutar por aquilo que queres e em que acreditas. Podes contar sempre comigo, embora por vezes pareça "o velho do Restelo".
Beijos ... muitas saudades
Ana Paula
Não sei se os olhos me enganam ou estás mesmo feliz?! Ter o condão de fazer sorrir é uma maravilha. Lindos pirralhos! Só dá vontade de os encher de beijos.
As saudades já apertam? Por cá temperaturas de 40º., Peter Murphy em Évora e Músicas do Mundo em Sines. De resto, a cidade está atada por cordeis. Um grande beijinho e abraços apertadinhos.
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