terça-feira, 20 de outubro de 2009

Frat.





Do nada fui convidada para integrar um dos painéis de juris de um festival internacional de cinema de animação digital, o Animatu. A medo, aceitei o desafio, avisando que não teriam de mim mais do que a visão de uma espectadora de cinema, qualquer que seja o registo. Mas depois senti-me como peixe dentro de água. Em quatro dias, vi sem me cansar cerca de 60 curtas e discuti-as acaloradamente com uma congénere búlgara, a residir em Berlim. Éramos o juri que representava a imprensa. A mesma idade, o mesmo sentido estético, as mesmas preocupações temáticas, a mesma noção de ética. E a mesma dificuldade em decretar, em defintivo, "este é o melhor!". Tanto mais que entre os menos bons estavam obras como esta que vos deixo aqui. Ganhou noutra categoria. Ficámos aliviadas.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Capitães da Areia

Foto: Paulo Rafa em Olhares

Um dia, num encontro com leitores, ouvi do António Lobo Antunes uma frase que deixei registada algures por este blog temperamental:

“Nos grandes livros a história é muito pouco importante.
O problema é como vesti-la de palavras”.

Eu, curvada, acrescento: nos grandes livros, mais até do que as palavras, eleva-se a capacidade de vestir de humanidade personagens sem existência física, ainda que - e quase sempre assim é - se use o molde da realidade para as fazer despontar.

Ora leiam:

"João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tornara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. Gostava de saber coisas e era ele quem, muitas noites, contava aos outros histórias de aventureiros, de homens do mar, de personagens heróicos e lendários, histórias que faziam aqueles olhos vivos se espicharem para o mar ou para as misteriosas ladeiras da cidade, numa ânsia de aventuras e de heroísmo. João José era o único que lia correntemente entre eles e, no entanto, só estivera na escola ano e meio. Mas o treino diário da leitura despertara completamente sua imaginação e talvez fosse ele o único que tivesse uma certa consciência do heróico das suas vidas. Aquele saber, aquela vocação para contar histórias, fizera-o respeitado entre os Capitães da Areia, se bem fosse franzino, magro e triste, o cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de míope. Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços e níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da noite da Bahia."

("Capitães da Areia", Jorge Amado)

E depois ainda há almas generosas e crentes que me vêm perguntar por que é que eu não escrevo um livro. Meus filhos, mesmo não sendo muito velha, ainda sou do tempo em que só se publicavam os melhores, os mais geniais, originais, tocantes. Bons, esses tempos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ela

Cheguei a ela por baixos ímpetos de fêmea territorial. Uma mulher é aquele colo imenso e fofo, aquela deusa de candura e cuidado, até ao momento em que lhe roubam o lugar no pedestal. O orgulho, a vaidade, ai o chão que nos foge, ai que nos roubam o espelho, a frágil e cómoda fonte de auto-estima. Antes do nome, um tanto vulgar, apenas um laivo de identidade. O mundo é uma aldeia, não me convencem do contrário, e o universo uma coisa misteriosa com regras subterrâneas, insondáveis, que fazem de nós paus-mandados vulneráveis. As cadeias estabelecem-se – há sempre alguém que conhece outro alguém que, através de outro alguém, chega até nós. Involuntariamente. Estejamos nós no largo silencioso, onde se cruzam um cão dolente e dois velhos que procuram a melhor sombra para descansar os ossos doridos, ou na avenida monumental, desfile de cores e formas humanas, tipos sociais, uniformes e excentricidades.
Também ela o achara um amante sofrível. Demasiado maquinal, higiénico, executante, frugal. Um conto breve, duas páginas, sem consistência de enredo, uma sandes de pão de pacote devorada ao balcão, um contabilista de lençol a riscar tarefas. O ilusionista apenas se valia de um trunfo, confirmaria ao ouvido do meu espião acidental. O beijo. Um beijo poderoso, encantatório, promissor de volúpias e coreografias requintadas, depois do qual deixava de ser possível o regresso. Íamos – com o pensamento limpo, todas carne e pele, lábios acesos e cabelos enredados.
Aos poucos fui encaixando a descrição física minuciosa no perfil de mulher que se sentava ao meu lado, no terraço amplo, engalanado de flores e envolto no limbo misterioso da luz do fim de tarde. Por detrás de nós a montanha, as casas de madeira coloridas a bordar a encosta; à nossa volta amigos comuns, muitas caras conhecidas, e o casal que celebrava o insólito feito de uma década de vida ininterrupta. Ao que parece – eis a festa – sem demasiados sobressaltos.
A dois palmos de mim, ela era tudo o que eu não desejaria que fosse. A mulher bela, sem artifícios. E isso irritou-me, a princípio. O cabelo solto e acabado de lavar, um vestido fluido que apenas fazia adivinhar as formas de um corpo elegante, flexível, quase de bailarina, os pés descalços, magros, ágeis, o rosto pueril e sardento. Falámos. Primeiro com esforço e entre muitos silêncios e interrupções, depois com uma cadência e uma partilha que nos surpreendeu até à gargalhada, até ao esquecimento. Dele, do rosto dele, da voz, das mãos, dos lábios, dos gostos, das opiniões políticas, dos vícios e rituais. Todo ele a esborratar-se como um esboço a carvão encharcado pela chuva, à medida que ela sorria, arregalava os olhos, ilustrava as palavras com as mãos, cruzava e descruzava as pernas brancas, troçava, condescendia, irava-se e voltava à doçura original. Um rosto sobrepunha-se ao outro, sem violência, num encaixe perfeito.
Foi tão fácil. Cheguei a ela por já não me lembrar de mim. Depois, como quem sacode displicentemente migalhas do colo, esqueci-me dele.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Caravana

Não pude deixar de rir com a pergunta lançada pelo senhor atarracado, em sotaque sibilante. Aliás, rimo-nos todos, até mesmo quem de imediato ajeitou o pescoço no sítio onde costuma ter posta a gravata, para retomar a compostura dos dias de expediente. “Vocês são do circo?” quis saber o camionista nortenho, que pernoitava na estação de serviço às portas de Bilbao. Não me apercebi que estivéssemos tão sebentos ao ponto de ganhar semelhanças com uma qualquer trupe de saltimbancos em digressão, nem tão pouco nos saíam adereços coloridos pela porta escancarada, caniches dançarinos, ou chicotes de domar leões. Mas para o homem, que parecia sonhar com umas férias no sul de Espanha – deixou entender o absurdo de que optássemos pelas praias e cidades do norte, com umas málagas tão jeitosas, ali a avistar Marrocos – não parecia haver outra razão para que um grupo de seis moços e moças se deslocassem assim, sem tecto firme à espera quando piscassem as estrelas.

Mal encheu o depósito de água e deu por terminada a sua missão altruísta de recordar a língua mãe a quem há muita não avistava uma matrícula nacional (esse poderoso P capaz de derreter até o coração menos patriota), a Caravana fez-se à estrada para cumprir a última etapa: Bilbao, praias de Sopelana, Madrid e, de novo, Lisboa. Ao todo, contabilizaram-se 2700 quilómetros. De mapa na mão mas sem absolutamente nenhuma rota para cumprir. Apenas nos guiaram a linha da costa a partir da Galiza e a beleza das vistas.
E a Caravana rodou no asfalto, umas vezes teatro ambulante, outras bar de comes e bebes e pista dançante, outras ainda apenas cama sobre rodas. E acompanhou, nos seus loucos 100 Km/h, a paisagem a ganhar relevos, a intensificar o verde e a harmonizar as linhas arquitectónicas entre as praias galegas e os Picos da Europa, que tanto me fizeram lembrar as portentosas montanhas norueguesas. Foi também companhia de edifícios seculares, nos centros históricos, abeirou-se de rios e quase molhou as rodas no mar, fez sala em bancos de jardim e lançou no chão a manta marroquina para jantares improvisados iluminados pela lua.


A Caravana foi uma aprendizagem a dois tempos. De descoberta pura, porque se pôs de lado todo o conforto acessório, e se percebeu que o importante é ver, estar lá, desfrutar, reter os momentos. De comunhão humana, porque todos sabíamos que não seria fácil conjugar seis mundos de vontades, interesses, sensibilidades, humores, formas de estar, de conhecer. E a “comunidade” impôs-se, para além dos amuos, do cansaço e dos picos de irritabilidade. Para o ano diz que é de barco. Eu digo, desde já, que vou.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Aos domingos


Aos domingos soava, indolente, o relato na rádio.
Aos domingos havia missa pelo meio-dia mas tu nunca ias. Tinhas o culto das amizades, da partilha, não dos santos.
Aos domingos almoçava-se tarde. Cozido de grão.
Aos domingos visitavas-nos de madrugada, de camisola grossa azul-eléctrico, para nos ajeitar as mantas. “Tapem-se que está de chuva”, mentias, antes da partida para a caça, com a perdigueira que te sabia o rasto, mesmo a léguas.
Aos domingos a rua serenava e as cigarras subiam de tom pela hora do calor. Ao sono imenso juntavam-se, pelas tardes dentro, programas de variedades intermináveis e filmes de cowboys dobrados em espanhol.
Aos domingos as perdizes mortas eram estendidas na bancada de mármore. Às vezes, aparecia uma lebre ou outra, que oferecias.
Aos domingos ias ao estádio ver futebol.
Aos domingos pedia-te colo e um voo de baloiço. No parque infantil, sob o olhar da senhora gorda que usava cabeleira postiça, eu gritava “mais alto, mais alto”. E tu empurravas com força até se me arrepiar a barriga.
Aos domingos dávamos as mãos e tinhas cheiro de mãe.



Escrevi este texto há um ano atrás, sem a consciência de que me despedia. É assim, percebo agora, que lido com as perdas. Antecipo-me, como se esta ilusão de ter poder sobre o curso da vida, criando um escudo contra a surpresa e o imprevisto, me poupasse à dor. Depois esqueci-o no caderno vermelho, que nunca mais abri, varrendo este assomo do inconsciente, este sonho quase delírio.

A noite estava estranha. Abafada. Caíram umas parcas gotas de chuva que logo secaram na terra. Abri os braços para que a água tépida me refrescasse o corpo quente e, de olhos fechados, dei por mim na escuridão de mim própria, num silêncio que me consolou por momentos. Fechei-me, protegi-me, ainda. Dos mastros de Santo António chegavam sons de festa, numa alegria que me ofendeu, como se o mundo todo não visse que aquela era uma noite aziaga, a mais triste de sempre.

Lá dentro, junto ao seu leito, as mulheres da casa aguardavam a hora com sábia serenidade. Os mais velhos já viram tudo, não guardam ilusões, aprendi eu nessa noite. Um dia, eu hei-de perceber as coisas sem a posse de todas as evidências. A respiração aquietou-se e eu imaginei um sono bom, profundo, sem dor, sem luta. Duvidei ainda quando lhe cingi o braço magro, na confusão da minha própria pulsação desregulada. Afaguei-lhe depois longamente as mãos, como se um estímulo meu o retivesse ainda. E porque sempre foi assim, nesta mudez da pele, que lhe disse o meu amor grande, enorme, irrepetível talvez. Foi, sem retorno. É assim a morte e eu não sabia. Chegou às primeiras horas de um domingo, em noite de arraial e de chuva anunciadora de trovoada. Continuo a receber, com cordial distância, os pêsames dos que vão sabendo. Mas não sei ainda dizer, na escuridão de mim própria, “já não tenho pai”.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Boa noite. Eu vou com as aves. *

Matisse por Henri Cartier-Bresson

Não tinha que o fazer. Isto nunca foi um compromisso, uma obrigação, um ponto de encontro. Foi sendo qualquer coisa, sem propósito, e atraiu alguns leitores, sabe Deus como. Afinidades, identificações, reconhecimentos, não sei. Não tinha de explicar por que é que, paulatinamente, primeiro num desinteresse pontual, depois já numa total indiferença sem possível apelo, deixei de me importar com os blogs. O meu e os dos outros. Porque uma coisa leva à outra. Não tinha, mas é o que me apetece fazer. É que, de algum modo, devo qualquer coisa a quem, comentando, lendo, interessando-se, me levou a ir alimentando este espaço com palavras e imagens.

Lamento, mas nunca tive jeito para fazer as coisas perdurarem no tempo. Ainda este fim-de-semana, concluía, em conversa com amigos, que a minha vida sempre foi feita de sucessivos projectos. É este o meu padrão, a minha natureza: interesse, entusiasmo, esforço, um empenho perfeccionista, quase a roçar a obsessão, depois o chegar à meta, o prazer do objectivo cumprido, e logo imediatamente o virar de página. Não me prendo, nunca me deixo prender. Além disso, escrever é uma elaboração do que sentimos, do que vivemos, mesmo quando não o fazemos em jeito de diário, com todos os detalhes aborrecidos de uma vida real, normal, o que se come, calça ou veste, o que se vê no cinema ou nos jornais, como vão ou não vão os amores e outras confissões de consumo voyeurista, que me levam a preferir, cada vez mais e sempre, a ficção. A boa ficção. A literatura, portanto.

Dizia eu que a escrita e a vida são coisas indissociáveis, mesmo até quando esta não se revela, de um modo óbvio, através daquela. E a minha tem tido viragens recentes que não quero partilhar, nem sequer nas entrelinhas de um poema. Há dores e há a Dor. Essa tem o seu caminho, a sua metamorfose. Não sai do peito e vai para o papel, sem outro percurso.

Lamento, pois, este abandono, desistência, desinteresse, fim, paragem… Enfim, o que quer que seja. Mas é que, verdadeiramente, não estou para mais. E quem me conhece sabe que nunca me deixei ficar, emocionalmente falando, onde não queria estar.

* título pedido de empréstimo a um poema de Eugénio de Andrade.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Bendito silêncio

Aprecio cada vez mais o silêncio, o contemplar das coisas. Sinto que as palavras são vãs quando pretendem explicar, dissecar. Por vezes, falar é chover no molhado, é multiplicar-se em redundâncias. Não raras vezes, sucede-me não ter opinião, ou ter e não querer partilhá-la. Naquele momento, naquele contexto. Com frequência, sinto também conforto no simples observar sem a urgência de pôr legendas. Trato as palavras com parcimónia. Desde sempre. Sou do tipo “poucas falas”, “moça calada”, aquela que não sabe fazer sala e que só se abre com gosto, naturalmente, quando se entusiasma com um assunto, uma ideia, uma pessoa, quando pressente que pode enriquecer a tertúlia com o seu contributo. Quando não, observo, distancio-me, volto para dentro. Tirar-me daí é, por vezes, violento e contraproducente. Apontar-me o dedo é, muitas vezes, a melhor forma de me manter na toca.

Temperamento à parte, a verdade é que ando mesmo cansada de análise, de raciocínio, de argumentação, de julgamento também. Há anos que me analiso, que analiso os outros. O que é isto da vida, o que sou, por que me comporto assim, por que tomei este caminho? E de tanto remexer, parece que não fiquei com muito mais do que um punhado de nada nas mãos. Nem tudo tem que ter um sentido preciso, nem tudo é susceptível de ser racionalizado e decomposto em partes e subpartes, frente e verso, cabeçalho e rodapé. Por vezes, faz tão mais sentido aceitar o que é sem pretender acrescentar-lhe mais nada. E depois há aquela música que se intromete na argumentação e nos cala, faz descer as pálpebras e viajar para além das palavras, num transe colectivo, numa espiral de sensações. Talvez tenha sido esse o sumo da noite, o momento em que estivemos mais em nós, mais com os outros, mais focados, sem teorização possível. Bendito Nitin Sawhney. Bendito silêncio.